Zeitgeist Vlll
Jó
O livro de Jó é uma das mais complexas narrativas bíblicas.
Escrito em forma de diálogo – um épico, portanto – entre Jó, seus três amigos e Deus; muito se discute a respeito do motivo pelo qual foi colocado no cânone final da Bíblia.
Uma das possibilidades é que Jó visa esclarecer o motivo pelo qual pessoas boas passam por coisas ruins.
A narrativa é anterior ao livro, e existe dentro da cultura religiosa Judaica tradicional, sendo já estória narrada há séculos antes de sua compilação em forma de livro.
Não se sabe quem foi o autor, somente que foi um israelita, uma vez que trata a Deus como “Javé”, e que a época de sua compilação é de aproximadamente 1500 a.C.
Existem outros diálogos semelhantes encontrados na literatura da região mesopotâmica na mesma época: “Um diálogo sobre a desgraça humana” é um exemplo.
O que difere o livro de Jó dos outros são dois fatos, o primeiro: Jó aproxima o sofrimento humano da luz da transcendência da bondade de Deus, e o segundo é o fato de que em nenhum momento Jó põe-se como culpado de todas as acusações colocadas contra ele. E o livro afirma que, em tudo o que ele disse, não pecou (não entrando no mérito de pecado ou não aqui).
A consciência limpa de Jó é uma forte acusação contra seus amigos.
O fato é que não se sabe se tal personagem existiu realmente, e isto não nos importa, importa as lições que podemos desta narrativa tirar:
Deus é soberano.
Jó perseverou, e sua temperança adveio da tribulação.
O sofrimento ocorre a qualquer um, a qualquer momento, e não necessariamente será nossa a culpa.
A crise de Jó, durante a parte central do livro, tem muito a ver conosco: mostra a reação humana ante um sofrimento imposto e que não se pode diminuir.
Acho impressionante a maneira como, de forma poética, vejo este personagem falar sobre o peso de sua dor:
“Os meus dias passaram, e se malograram os meus propósitos, as aspirações do meu coração. Convertem-me a noite em dia, e a luz, dizem, está perto das trevas. (…) Se ao sepulcro eu clamo: tu és meu pai; e aos vermes: vós sois minha mãe e minha irmã, onde está, pois, a minha esperença?”
(O livro de Jó, Capítulo 17, versículos 11 a 14; fragmentos.)
A montagem de Zeitgeist inicia-se com um psicólogo que passa pela mesma problemática: inocente, é acusado de coisas inimagináveis. A crise devastadora que se apresenta depois é aonde iremos encontrar este personagem que, como Jó, não tinha como responder às questões que se colocaram diante dele.
Entretanto, as lições de Jó não terminam aí: ele manteve-se perseverante, e ao fim, tudo se renovou e tudo lhe foi devolvido em dobro por Javé, como prova de benignidade e prêmio por sua paciência:
O teste de Deus havia passado.
É algo a ser pensado.

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