Elocubrações lX- O problema do sofrimento

Ante ao questionamento eterno sobre o sofrimento “como Deus pode permitir uma coisa destas?” tive de responder: Deus nada tem a ver com isto.

Não adianta tentarmos colocar a Deus em algo que ele não pode ser envolvido: Deus deixou claro a forma sobre como deveríamos dispôr dos recursos colocados à nossa disposição nesta nossa casa chamada “Terra”, entretanto, o homem decidiu se rebelar e crer que a sua própria forma de administração do mundo seria a melhor, e não somente do mundo, porém também da própria vida.

Deu no que deu.

Está dando no que está dando: não se tratam de suposições, mas simplesmente da pauta do jornal. É abrir os olhos e encontrar sofrimento.

Sofrimento é causado pelo ser humano ao ser humano.

Sofrimento é coisa humana.

Sofrimento é a paga menor de nossa existência, uma vez que sequer deveríamos existir pelas nossas imperfeições, visto que nos rebelamos.

Imagino Deus conversando com a trindade – e aqui uso de figuras antropomórficas – sobre o projeto da Criação do Mundo:

“Nós iremos criar o homem. Ele terá livre-arbtítrio.”

Ao que o Espírito Santo responderia:

“Você acha mesmo que ele tem que ter livre-arbítrio? ele irá se voltar contra nós!”

“É verdade.”

“Isto implica em que nós não o poderemos criar, pois ele será imperfeito a partir do ponto em que decidir se rebelar contra nós, além de, claro, atingir em todos os níveis a Criação e o mundo: a criação se tornaria imperfeita.”

“É verdade.”

“Então, como resolveremos isto? negá-lo seria negar à Justiça e à Santidade que nos é inerente, e isto nós não podemos fazer.”

“É verdade.”

“Então?”

“Então alguma coisa deve ser feita antes de criarmos ao homem e ao mundo para justificar a sua existência: alguém deve ser sacrificado no lugar da criatura imperfeita que o homem se tornará, tomar o lugar dele, vencer aonde ele irá falhar e dominar a morte para que, então, nossa conexão seja refeita, e isto deve ser feito antes de criarmos a esta dimensão, senão tal não poderá ocorrer.”

Jesus, ao fundo da sala, responde simplesmente:

“Eu vou. Eu pago o preço. Eu resgato o homem e a Criação, assim se justificará ao mundo.”

Ao que Deus responde:

“Está feito.”

E assim foi. E nós, então, fomos justificados e pudemos existir.

O sofrimento, portanto, existiu desde sempre e antes de sempre devido ao homem.

Como resultado direto da forma errada que o homem veio a se tornar por sua própria decisão, sua natureza veio a tornar-se pendente ao mal, o que, então, explica a sua falta de capacidade em amar, e aqui quero dizer amar realmente.

Metade, senão pelo menos uns dois terços dos problemas do mundo seriam resolvidos se decidíssemos amar uns aos outros: de aonde surgiu tanto dinheiro para auxiliar ao sistema “econômicopolíticosocialreligioso” de uma só tacada se antes não havia condições financeiras para se auxiliar no combate à fome, à AIDS e etc?

Por que se têm tanto dinheiro disponível para gastar em salvar um sistema e não se pode salvar gente?

O Cristão deveria ser o contraponto, a demonstração da forma ideal de vida entendida por Deus no ato de Sua criação, estendendo as mãos como agentes transformadores de vida, agindo como dedo de Deus escrevendo a história nova de pessoas tocadas por eles e suas vidas; sim, pois que entendemos como cristãos que a história é viva e não cíclica como os gregos a entendiam. Somos agentes transformadores e co-operadores num mundo vivo.

Deus não tem nada a ver com o sofrimento. Não foi Ele quem permitiu o sofrimento.

Como Lutero, acredito que o que, enfim, Deus se resolveu por “manter as coisas funcionando” apesar do homem lutar contra todo o tempo: quando se faz uma represa para que possamos, com um toque de interruptor, acendermos as luzes de nossos quartos, o que estamos a fazer senão simplesmente alterarmos o curso natural das águas de um rio? e o quê ocorre com o ecosistema ao redor da represa, será que não será influenciado pela grande massa de energia armazenada no imenso volume de água necessário para se acender a lâmpada da cozinha?

O homem degrada a criação desde que ele mesmo foi criado.

Deus decidiu não intervir, entretanto, nas decisões do homem. Deus deixou o homem com seu livre-arbítrio. Ele respeita nossas decisões, contudo, manterá – como prometido – as coisas funcionando (obviamente, caso contrário não seria Deus); ou seja: não adianta acreditar que, ao se jogar de um prédio de 200m de altura, se poderá voar: as coisas permanecem funcionando. As leis estabelecidas não irão mudar.

Não se pode esperar que uma casa construída num morro sem vegetação possa permanecer em pé debaixo de uma chuva torrencial, entretanto continuamos a construí-las ali, pois quê?

A maldade do homem não tem limites: ao invés de se ter vontade de retirar à gente dos morros, se permite que a situação piore, o que, claramente, prenuncia a tragédia.

A justificação do homem se deu antes da Criação para que a criação pudesse existir. A este ato redentor damos o nome de Salvação.

A Salvação implica em que sejamos agentes desta justificação, atuando positivamente em nosso “habitat”, levando o ser humano a aprender a ser humano.

~ por annodominiproject em Dezembro 1, 2008.

Uma resposta to “Elocubrações lX- O problema do sofrimento”

  1. de acordo.
    e triste por situações como sta catarina.

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